INTRODUÇÃO

Durante intervenções no antebraço e mão freqüentemente encontramos variações anatômicas dos músculos e seus tendões. Os tratados clássicos de anatomia apresentam, no entanto, informações imprecisas a esse respeito.

Em virtude dessas constantes variações encontradas, particularmente em relação ao músculo extensor curto do polegar e suas repercussões funcionais, resolvemos realizar estudo anatômico desse músculo, analisando a dissecção de 60 peças anatômicas.

O conhecimento das variações anatômicas encontradas, com certeza, é de grande importância prática para a realização de intervenções cirúrgicas ao nível da mão e antebraço.

LITERATURA

Le Double(3), em seu tratado sobre as variações do sistema muscular do homem, observou a ausência desse músculo, salientando que ela já fora assinalada por Soemmerring, MacAlister, Moser, Leidy, Wood e Chudzinski. O autor descreve que o tendão do músculo extensor curto pode fundir-se com o extensor longo do polegar. ou, independentemente deste último, estender sua inserção até a falange distal do polegar. Estudando 85 cadáveres, observou, em dois deles, que o tendão do extensor curto, além de sua inserção normal, enviava uma expansão tendinosa para o 1º metacarpiano e relata que, em 1894, Thomas encontrou um caso em que a expansão enviada pelo extensor curto inseria-se na falange distal do polegar.

Pearson & Robinson(4) notaram a ausência do músculo extensor curto em oito de 126 membros. Afirmam que, em 118 casos, encontraram o tendão do extensor curto inserindose apenas na base da 1ª falange em 72%; em 6,8% apenas na base da 2ª falange e, em 21,2%. na base da 1ª e da 2ª falanges.

Poirier & Charpy(5) descrevem que a inserção distal do músculo extensor curto pode se fazer por dois tendões, dos quais um vai se inserir no lº metacarpiano ou na falange distal do polegar. O músculo em estudo pode estar ausente ou fundido com o músculo abdutor longo de maneira parcial ou total.

Testut & Latarjet(7) também referem que o músculo extensor curto pode ser duplo, podendo, nesse caso, o tendão acessório inserir-se com o tendão normal na base da falange proximal, porém pode terminar na base do 1º metacarpiano ou na base da falange distal. Há casos de ausência ou fusãO em grau variável com o músculo abdutor longo.

Stein Jr.(6), dissecando 84 membros de 42 cadáveres, evidenciou a duplicação do tendão do músculo extensor curto em sete e, em três destes (4%), a duplicação era evidente proximal, distal e ao nível do canal osteofibroso. Em cinco desses sete casos, o tendão acessório unia-se ao tendão do músculo extensor longo do polegar. Refere que, em seis observações, não foi possível evidenciar um tendão distinto do músculo extensor curto, no entanto, um simples tendão bastante volumoso foi observado ocupando o canal osteofibroso e desse originava-se uma expansão tendinosa que se inseria na base da falange proximal. Esse tendão volumoso também dava uma fita tendinosa que se dirigia ao trapézio ou ao músculo e a fáscia da eminência tenar. Em três punhos, foi observada a duplicação do tendão do músculo extensor curto e também a duplicação do tendão do músculo abdutor longo do polegar. Foi observada diferença significativa entre os dois antímeros, em sete dos 42 cadáveres.

Kaplan (2) refere que o músculo extensor curto, às vezes, está completamente ausente ou não se estende além da parte média do 1º metacarpiano; pode também estar completamente fundido com o músculo abdutor longo. Descreve, ainda, que o tendão do músculo extensor curto, em alguns casos, divide-se ao nível da articulação metacarpofalângica do polegar em uma parte profunda, que se insere na base da falange proximal, e outra superficial, que se continua sobre o dorso da falange proximal, contribuindo com fibras ao sistema extensor no lado radial; as fibras superficiais podem alcançar a base da falange distal. Esse autor registra ainda que, em sua experiência, na maioria das vezes o tendão do músculo extensor curto chega até a falange distal.

Tsuge (8) observou que em dois casos de ausência do músculo extensor longo do polegar o tendão do músculo extensor curto estendia sua inserção até a base da falange distal.

Goss(1) relatou que o músculo extensor curto, com seu tendão, pode estar ausente ou fundir-se com o tendão do músculo extensor longo do polegar.

Warwick & Williams(9) também descrevem que existe freqüentemente uma inserção adicional na base da falange distal por um fascículo que se reune ao tendão do músculo extensor longo do polegar, referem que o tendão do músculo extensor curto pode estar ausente ou completamente fundido com o abdutor longo ou com o extensor longo do polegar.

MATERIAL

O material deste trabalho consta de 60 peças anatômicas. correspondentes a 30 pares de mãos de cadáveres.

Todas as mãos foram dissecadas a fresco, obtidas de cadáveres conservados em geladeira e pertencentes à Disciplina de Anatomia da Faculdade de Medicina de Sorocaba da PUCSP.

As mãos pertenciam a indivíduos com idade variando entre 17 e 53 anos, sendo 27 do sexo masculino e três do feminino, Quanto à etnia, 17 eram brancos, seis negros, seis mulatos e um de raça amarela.

RESULTADOS

O tendão do músculo extensor curto do polegar passa, junto com o tendão do músculo abdutor longo do polegar, pelo mesmo canal osteofibroso, ocupando posição mais dorsal em relação ao outro, formando ambos, após a passagem pelo canal, o limite lateral da tabaqueira anatômica.

Dos 60 casos estudados. só em um foi encontrado um tendão acessório (1.66%) (fig. 1). Este tendão acessório era bem evidente na parte proximal, ao nível e distalmente ao canal osteofibroso, e inseria-se, junto com o tendão principal, na base das falanges proximal e distal.

A ausência do tendão do músculo extensor curto do polegar foi verificada em dois casos (3,33%).

A fig. 2 mostra o tendão do músculo extensor longo do polegar, após passar pelo seu canal osteofibroso, dirigindo-se para o lado radial e seguindo junto com o tendão do músculo abdutor longo do polegar, de modo a não formar o limite medial da tabaqueira anatômica.

Quanto à inserção distal, o músculo extensor curto inseriase apenas na base da falange proximal do polegar em 35 dos 60 casos (fig. 3); em 22 observações (36,6%), além da inserção na base da falange proximal, inseria-se também na base da falange distal, junto e lateralmente com o tendão do músculo extensor longo do polegar (figura 4).

Em um caso (1,66%), além de sua inserção na base da falange proximal, inseria-se também na base do 1º metacarpiano, junto com o abdulor longo, porém em situação mais dorsal que a inserção deste (figura 5).

Foi observada completa simetria entre os lados direito e esquerdo em 23 dos 30 cadáveres (76,6%).

DISCUSSÃO

A ausência deste músculo foi assinalada por Le Double(3), Poirier & Charpy(5). Testut & Latarjet(7), Kaplan(2) e Goss(1). Nas dissecções efetuadas por Pearson & Robinson(4), foi verificada em oito de 126 membros (6,3%). Stein Jr.(6), por sua vez, não conseguiu evidenciar um distinto tendão do músculo extensor curto em seis de seus 84 casos (7,2%): em nossas preparações, o tendão do músculo extensor curto do polegar estava ausente duas vezes (3,3%).

Em relação à presença de tendões acessórios. Stein Jr.(6) observou sete vezes em 84 membros dissecados (8,3%); nossas observações mostraram essa ocorrência apenas uma vez (1,6%).

A maioria dos livros de anatomia humana descreve a inserção do tendão do músculo extensor curto apenas na base da falange proximal.

Poirier & Charpy(5), Testut & Latarjet(7) e Warwick & Williams (9) descreveram que, além de sua inserção normal na base da falange proximal, pode inserir-se acessoriamente no 1º metacarpiano ou na base da falange distal do polegar.

Estudando 85 cadáveres, Le Double(3) observou que em dois desses havia uma expansão acessória para a base do lº metacarpiano e descreve que Thomas, quatro anos antes, havia encontrado um caso em que a expansão acessória se dirigia à base da falange distal do polegar. Tsuge(8) observou, por duas vezes, o tendão do músculo extensor curto estender sua inserção até a base da falange distal do polegar. Kaplan(2), no entanto, registrou que na maioria de seus casos o músculo extensor curto prolongava sua inserção até a base da falange distal do polegar. Pearson & Robinson(4), por sua vez, encontraram o tendão do músculo extensor curto inserindo-se apenas na base da falange proximal em 72%; em 6,8%, apenas na base da falange distal e, em 21,2% dos casos, a inserção faziase na base das falanges proximal e distal do polegar. Em 35 de nossas observações (59%), a inserção do músculo extensor curto fazia-se apenas na base da falange proximal; em 22 vezes (36,6%), nas bases das falanges proximal e distal e, em uma única observação (1,6%), foi verificada a inserção na base da falange proximal e base do 1° metacarpiano; nos dois casos restantes, o tendão estava ausente. A inserção apenas na base da falange distal, observada por Pearson & Robinson(4) em 6,8%, não foi verificada em nossas preparações.

Stein Jr.(6) observou significativa diferença entre os dois antímeros em sete dos 42 casos (16,6%), tendo esse fato ocorrido sete vezes em nossos 30 cadáveres (23,3%).

CONCLUSÕES

Os resultados obtidos pela dissecçã a fresco de 30 pares de mãos de cadáveres permitem-nos chegar às seguintes conclusões:

1 ) A ausência do músculo extensor curto do polegar foi observada duas vezes (3,33%);

2) A inserção distal apenas na base da falange proximal foi observada 35 vezes (58,3%); na base de ambas as falanges, foi verificada 22 vezes (36,6Y%) e, em um caso (1,66%), na base da falange proximal e na base do 1° metacarpiano;

3) Apenas em um caso (1,66%) evidenciarnos a presença de um tendão acessório inserindo-se na base das falanges proximal e distal;

4) Entre os dois antímeros, foi verificada simetria em 23 casos (76,6%).

REFERÊNCIAS

Goss, C. M.: Gray Anatomia, 29a ed., Rio dc Janeiro, Guanabara-Koogan, 1977. p. 379,

Kaplan, E. B.: Anatomia Funcional y Quirurgica de la Mano, Buenos Aires, Artecnica, 1961. p. 101. 

Le Double, A.F.:Traité des Variations du Système Musculaire de l'Homme. Paris, Schleicher, 1897. T. 2, p. 103-171.

Pearson, F.G & Robinson, A.: Eighth report of the Committee ofCollcctive Investigating of the Anatomical Society of Great Britain and Ireland for the year 1897-98. J Anat Physiol 33: 189, 1898.

Poirier, P.S. & Charpy, A.: Traité d' Anatomie Humaine, 2e. ed , Paris, Masson, 1912. T. 2, fase. 1, p. 433.

Stein Jr., A. H.: Variations of tendon of insertion of the abdutor pollicislongus and extensor pollicis brevis. Anat Rec 110: 49-55, 1976.

Testut, L. & Latarjet, A.: Tratado de Anatomia Humana, 8ªed, Barcelona, Salvat, 1947. V. 1 , p. 1059.

Isuge, K.: Congenital aplasia or hypoplasia of the finger extensors. Hand 7: 15-21, 1975.

Warwick, R. & Williams. P L.: Gray Anatomia, 35ª ed, Rio de Janeiro, Guanabara-Koogan. 1979. V. 1, p. 527