Constitui-se o movimento dos membros inferiores no tema mais estudado do corpo humano, em relação à marcha, embora outras partes do corpo participem ativamente desse processo. Dessa forma, começou a tomar forma a idéia de se avaliar cada um dos movimentos do pé quanto ao gasto de energia necessária para sua realização. Em resumo, a idéia era dissecar energeticamente a funcionalidade de cada movimento do pé.
Iniciamos nosso estudo pela dorsiflexão, por ser este o movimento de maior interesse no diagnóstico precoce da artropatia degenerativa do pé, que se inicia, na maioria das vezes, por limitação desse movimento em particular .
O objetivo deste trabalho é estudar o custo energético da dorsiflexão do pé em 30 indivíduos normais, analisando os resultados obtidos.
CASUÍSTICA E MÉTODOS
A casuística do presente estudo consta de dados obtidos do exame de 30 pés, em 30 indivíduos brancos, adultos, sobre os quais não incidia qualquer doença ou anormalidade nos pés, todos alunos da Universidade Santa Cecília dos Bandeirantes, Santos, SP. A idade variou de 20 a 34 anos, com igual distribuição de sexo, ou seja, 15 homens e 15 mulheres.
Todos os indivíduos participantes deste estudo foram submetidos a questionário e exames clínicos voltados para a detecção de anormalidades ao nível dos pés. A ausência de dados positivos quanto à clínica indicou-os como aptos a prosseguir no estudo em questão.
Na tabela 1, apresentamos esses indivíduos adultos pelas iniciais de seus nomes, registro, idade, sexo, peso e altura.
Convencionou-se que todos os participantes deste estudo utilizariam apenas o pé esquerdo para realizar a dorsiflexão ativa durante a medida do consumo de oxigênio necessário a execução deste movimento.
A medida do consumo de oxigênio, quando da realização da dorsiflexão do pé, foi realizada em todos os indivíduos no mesmo ambiente, sob as mesmas condições de temperatura e pressão.
Para a coleta dos dados, os indivíduos participantes deste teste foram acomodados em uma cadeira especial (Cybex Orthotron KT), com os membros superioree e inferiores contidos por tirantes especiais, de modo a permitir apenas a dorsiflexão do pé esquerdo. Havia um su-porte para apoio, fixo, a fim de possibilitar a todos os indivíduos o mesmo arco de movimento. Para nosso propósito, utilizamos uma válvula bidirecional, acoplada a um gasômetro de Tissot.
Após sua coleta no gasômetro, do modo usual, o ar era aferido, quanto à concentração de oxigênio, em um analisador de Beckman (modelo OM- 11), com método polarográfico, e, quanto à concentração de gás carbônico, em um analisador tipo Beckman (modelo LB-2), com sistema de análise infravermelho.
Inicialmente, os indivíduos participantes do ensaio apenas respiravam, por cinco minutos, em completo repouso, para que pudessem adaptar-se ao aparelho utilizado, medindo-se neste estágio o que se convencionou chamar de consumo de oxigênio em repouso.
Após esse periodo de tempo, o indivíduo era orientado a executar a dorsiflexão ativa do pé esquerdo, durante dois minutos. Todos os participantes fizeram 20 movimentos por minuto. A coleta de oxigênio foi realizada sempre nos últimos 30 segundos de execução do movimento, medindo-se, dessa forma, o que se convencionou chamar de consumo de oxigênio durante o exercício.

Método estatístico
A comparação entre os dois grupos independentes foi realizada por meio do teste t de Student. O grau de dependência entre duas variáveis foi avaliado pelo coeficiente de correlação linear de Pearson (r).
Foi utilizada a técnica de regressão linear múltipla, para verificar a associação conjunta das variáveis de interesse (idade, BMI, sexo) quanto ao consumo de oxigênio (durante o exercício) e em relação à variação do consumo de oxigênio (exercício-repouso). As variáveis foram selecionadas para entrar, ou não, na equação pelo método Stepwise.
Adotou-se o nível de significância de 5% (x = 0,05). Foram considerados significativos (*) os níveis descritivos (p) menores que 0,05.
RESULTADOS
Na amostra estudada, o consumo de oxigênio necessário para a realização da dorsiflexão do pé foi de 0,35ml/1, com DP = 0,06, no sexo masculino, e de 0,25ml/1, com DP = 0,04, no feminino (tabela 2).
Peso e altura do sexo masculino foram significantemente maiores do que peso e altura do sexo feminino. Isso justifica a utilização do índice BMI, que leva em consideração peso e altura, simultaneamente.
O consumo de oxigênio, durante o repouso e durante o exercício, mostrou-se significativamente mais elevado no sexo masculino.
Há correlação estatisticamente significante entre BMI e consumo de oxigênio durante o exercício no sexo feminino. Há correlação estatisticamente significante entre idade e variação de consumo de oxigênio (consumo de oxigênio em repouso-consumo de oxigênio durante o exercício) no sexo feminino, mas não há correlação no sexo masculino.
DISCUSSÃO
A literatura médics não mostra, até o memento, nenhum trabalho sobre o gasto energético da dorsiflexão do pé, ou qualquer outro movimento isolado desta região anatômica. A grande maioria das publicações sobre o gasto energético refere-se à marcha, ou a alguma outra situação de movimento.

A relação existente entre trabalho e gasto de energia, durante diferentes tipos de atividades, foi assunto profundamente estudado por Passmore & Durnin(8).
Tradicionalmente, médicos e fisioterapeutas têm dado grande importância a sinais físicos como classificadores do movimento, como por exemplo a força muscular, e sintomas subjetivos, como a dor, na avaliação do tratamento. Recentemente, entretanto, esses parâmetros têm sido usados para avaliar a função ou efetividade de marcha inadequad a(1,2,6,7).
Outro modo de avaliar a aptidão de marcha é estudar seu gasto energético por meio do consumo de oxigênio. No repouso, o custo energético pode ser expresso como consumo de oxigênio, uma vez que o metabolismo é puramente anaeróbico(3-5).
Quando o exercício começa, o organismo gasta me-nos oxigênio do que necessário para o trabalho que realiza, devido à demora com que se efetuam os ajustes respiratórios e circulatórios necessários para levar até os tecidos a quantidade de oxigênio de que necessitam. Dessa forma, passando certo tempo do seu início de exercício, predomina o metabolismo aeróbico, de tal modo que o consumo de oxigênio aumenta progressivamente até chegar a um determinado nível estável, onde se mantém, mesmo que o exercício continue; terminado o exercício, o consumo diminui rapidamente, até chegar ao nível do consumo de repouso. Assim, se o exercício pode ser realizado num estado estável aeróbico, a mensuração do seu custo energético pode ser feita medindo-se o consumo de oxigênio em repouso e durante o período de estado estável.
Após medirmos o gasto energético da dorsiflexão do pé na amostra estudada, procuramos avaliar a possível influência da idade, peso, altura e sexo nos valores obtidos. Verificou-se que peso e altura do sexo masculino foram significantemente maiores do que peso e altura do sexo feminino. Isso justifica a utilização do índite BMI (peso/quadrado da altura).
O consumo de oxigênio, durante o exercício e durante o repouso, mostrou-se significantemente mais elevado no sexo masculino, devido ao fato de possuirem maior massa corporal, dado este concorde com a literatura.
Há correlação entre BMI e consumo de oxigênio durante o exercício no sexo feminino, o que provavelmente se deve ao fato de trabalharmos com amostras não uniformes; dessa forma, a maior massa corporal dentre algumas das representantes do sexo feminino justifica a correlação encontrada.
Finalmente, existe correlação estatisticamente significante entre idade e variação do consumo de oxigênio no sexo feminino, o que pode ser explicado por estarmos trabalhando com valores absolutos, ou seja, que não levam em consideração o peso, numa amostra me-nos uniforme do que a masculina.
Concluindo, o estudo do gasto energético da dorsiflexão do pé é apenas uma introdução ao conhecimento da sua fisiologia articular. Nosso objetivo é estudar, num futuro próximo, o gasto energético de todos os principais movimentos do pé, de forma que possamos fornecer dados importantes para o estudo das suas afecções.
Inman, V.T., Ralston, H.J. & Todd, F.: Human walking, Baltimore, Williams & Wilkins, 1984.
Johnsson, R., Melander, A. & Onnerfatl, R.: Physiotherapy after total hip replacement for primary arthrosis. Scand J Rehabil Med 20: 43-45, 1988.
Aniansson, A., Rundgren, A. & Sperling, L.: Evaluation of functional capacity in activities of daily living in 70 year-old men and women. Scand J Rehabil Med 12: 145-154, 1980.
Lankhorst, G.J., Van de Stadt, R.J. & Van der Korst, J. K.: The relationship of functional capacity, pain, and isometric torque in ostheoarthrosis of the knee. Scand J Rehabil Med 17: 167-172, 1985.
Fischer, S.V. & Gullickson, G.: Energy cost of ambulation in health and disability: a literature review. Arch Phys Med Rehabil 59: 124-133, 1978.
Grimby, G.: On the energy cost of achieving mobility. Scand J Rehabil Med 9: 49-54, 1983.
Passmore, R. & Durnin, J.V.C.A.: Human energy expenditure. Physiol Rev 35: 810-840, 1955.