O estímulo ao crescimento de ossos longos causado pelas fraturas é fato bem conhecido atualmente por vários autores(1-3,6-9,11) .Existe grande discussão quanto ao fator causal do mesmo e a maneira pela qual as características próprias de cada fratura, idade no momento do trauma, etc. influenciariam sobre esse estímulo.
É consenso de que a idade e fator importante, sen-do o estímulo máximo aos quatro anos e na adolescência. Quanto à duração do estímulo e o futuro da dismetria, existem opiniões diversas. Alguns autores afirmam que a dismetria se compensaria com o tempo(3) e outros sustentam que, ao final do crescimento, persistiria a diferença(1,2,8,11). A localização da fratura, segundo diversos autores, não influi no estímulo(2,6-9). O tipo de fratura, segundo alguns autores(2,8,11),poderia alterar o estímulo. Nosso objetivo é avaliar os efeitos da fratura fechada na diáfise do fêmur do rato na microestrutura da placa epifisária distal e as alterações do crescimento observadas através da mensuração das peças com paquímetro.
MATERIAIS E MÉTODOS
Foram utilizados neste estudo 35 ratos da raça Wis-tar, com quatro semanas de vida, pesando aproximadamente 50 gramas cada. Os animais foram divididos em cinco grupos, sendo que cada um constou de sete ratos (cinco do experimento e dois do controle). Os grupos fo-ram nomeados A, B, C, D e E, com subgrupos A1, A2 . . . , sendo 1 = experimento e 2 = controle.
Os ratos foram submetidos à anestesia inalatória com éter e então foram produzidas as fraturas ao nível da diáfise femoral direita, através de pressão digital. Não foram utilizados quaisquer tipos de imobilização e analgesia pós-operatória. A alimentação foi a habitual, constando de ração padrão e água à vontade. No pósoperatório, os animais foram mantidos em grupos de cinco em cada gaiola (ratos fraturados) e os animais controle foram mantidos juntos.
Os animais foram sacrificados da seguinte maneira: 1) 1.ª semana após fratura: A1 e A2; 2) 2.ª semana após fratura: B1 e B2; 3) 4.ª semana após fratura: Cl e C2; 4) 6.ª semana após fratura: D1 e D2; 5) 8.ª semana após fratura El e E2.
Após o sacrifício, os fêmures direitos dos animais foram dissecados , fixados em formol a 10% e encaminhados para estudos histológico e histoquímico.
Nos grupos D e E, os fêmures direito e esquerdo dos subgrupos D1 e E1 foram medidos com paquímetro de precisão de 0,05, tendo como parâmetros o grande trocanter e o côndilo lateral dos fêmures. A seguir, encaminhamos as peças ao Serviço de Radiologia, onde fo-ram feitas radiografias em projeção ântero-posterior com mamógrafo GCE/Siemens, com técnica de 30mA, 25kV e 0,5seg de exposição. Em seguida, as peças, como nos outros grupos, foram fixadas em formol a 10% e encaminhadas à histologia.
Todas as peças foram então descalcificadas e cada uma delas foi seccionada ao nível do foco de fratura. O fragmento proximal foi eliminado e procedemos ao corte sagital com bisturi, desde o foco de fratura até à superfície articular dos fêmures. Essas peças então foram impregnadas e incluídas em parafina. A seguir, foram realizados cortes sagitais com cinco micrômetros de espessura com micrótomo Spencer (American Optical). Os cortes obtidos foram coletados em lâminas de vidro e corados com as seguintes técnicas: hematoxilina-eosina e alcian blue para exame sob microscopia óptica. Foram utilizadas duas soluções de alcian blue: uma em pH 2,5 (alcian blue a 1% em ácido acético a 3%) e outra em pH 0,4 (alcian blue a 1% em solução 0,1 N de ácido clorídrico).
Os cortes hidratados foram lavados em soluções tampões de pH 0,4 e pH 2,5, respectivamente, antes de terem sido corados pela solução de alcian blue e pH correspondente durante duas horas, à temperatura ambiente. Após o tempo de coloração, os cortes foram novamente lavados em soluções tampões dos respectivos pH e, depois de lavados em água corrente e agua destilada durante cinco minutos, foram desidratados, clarificados e montados.
RESULTADOS
Do ponto de vista histológico, observou-se que no grupo da primeira semana os animais com fêmures fraturados apresentaram uma placa epifisária menos alcianofílica do que os animais controle. Na segunda semana, constatou-se nos animais fraturados diminuição da espessura da placa epifisária e da alcianofilia, que ocorreram principalmente na camada hipertrófica, quando comparados com os controles (figs. 1 e 2). Verificou-se que os animais fraturados do grupo da primeira semana apresentaram placa epifisária menos espessa e menos alcianofílica do que os animais fraturados do grupo da segunda semana.
Na quarta semana, houve redução da espessura geral da placa epifisária nos animais fraturados quando comparados com os fraturados da segunda semana. Ob-servou-se também aumento da alcianofilia nos animais fraturados em relação aos controles (figs. 3 e 4). Na sex-ta semana, persistiu alcianofilia mais acentuada nos fê mures fraturados em relação aos não fraturados. Na oitava semana, a afinidade pelo alcian blue se tornou praticamente igual nos fêmures fraturados e não fraturados (figs. 5 e 6).
Do ponto de vista macroscópico, observou-se hipercrescimento dos fêmures fraturados em relação aos não fraturados, através de medição comparativa com o lado contralateral, com exceção de um animal da sexta semana pós-fratura e de outro da oitava semana pós-fratura, em que observamos desvio angular acentuado dos fragmentos (fig. 7). Os resultados das medições e as diferenças absolutas e percentuais entre os fêmures fraturados (D) e controles (E) estão na tabela 1.



Com as medições efetuadas, foi elaborado um gráfico que relaciona as diferenças no comprimento longitudinal dos fêmures e o tempo pós-fratura. Até a quarta semana pós-fratura, alguns animais ainda apresentavam mobilidade no foco de fratura. A partir da sexta semana, observou-se consolidação clínica e radiológica em to-dos os fêmures fraturados; por esse motivo, só se realizaram medições comparativas nos grupos da sexta e da oitava semanas pós-fratura.
A tabela 1 representa os valores do comprimento longitudinal dos fêmures direito e esquerdo nos grupos sacrificados com seis e oito semanas após fratura do fêmur direito, mostrando que houve hipercrescimento do fêmur direito fraturado em relação ao esquerdo, com exceção de um animal do grupo da sexta semana e de outro do grupo da oitava semana, em que houve desvio acentuado dos fragmentos e conseqüente encurtamento do membro fraturado. O percentual refere-se a diferença entre os lados direito e esquerdo. Através da análise da tendência de hipercrescimento, é possível verificar que as dismetrias poderiam estar corrigidas antes da nona semana (gráfico 1).

DISCUSSÃO
Observamos que na primeira semana ocorreu menor alcianofilia e menor altura da placa epifisária no grupo fraturado, em relação ao grupo controle, sendo tal fato também observado na segunda semana. Essa diminuição da alcianofilia e da altura da placa pode ser considerada indicativa de menor atividade na placa de crescimento(6,10). Segundo Martin(6), nessa fase inicial pós-fratura, ocorre interrupção da irrigação metafisária da placa de crescimento. Acreditamos que a diminuição da atividade da placa epifisária nos fêmures fraturados esteja diretamente relacionada ao fator vascular.
A partir da quarta semana pós-fratura, notamos aumento da alcianofilia no grupo de animais fraturados. Uma possível explicação para tal fato estaria relacionada com o retorno da circulação metafisária(12).
A partir da oitava semana, verificamos que em ambos os grupos o padrão histoquímico era semelhante, indicando normalização da síntese de matriz extracelular na placa epifisária, no grupo de animais fraturados.
Os achados histológicos encontram relação direta nas observações macroscópicas, isto é, hipercrescimento dos fêmures fraturados comparados com o lado contralateral, nos animais das sexta e oitava semanas pós-fratu-ra, sendo que as diferenças absolutas e percentuais foram bem menores no grupo da oitava semana.
As opiniões referentes à duração do estímulo de hipercrescimento são variáveis; existem autores que afirmam que a dismetria se compensaria com o tempo(3) e outros sustentam que, ao final do crescimento, persistiria a diferença(2,4-9). De acordo com nossa observação, após a consolidação da fratura, ocorre diminuição do estímulo ao hipercrescimento na placa epifisária, com tendência progressiva à normalização da sua atividade, fazendo com que o comprimento longitudinal dos ossos tenda a se igualar, conforme se mostra no gráfico 1.
CONCLUSÕES
As fraturas diafisárias do fêmur em ratos, na fase inicial, promoveram diminuição da síntese da matriz extracelular da placa epifisária.
A partir da quarta semana pós-fratura, ocorreu inversão do padrão histoquímico, com consequente hipercrescimento femoral. A partir da oitava semana, houve tendência à normalização celular da placa epifisária e a normalização do ritmo de crescimento.
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