A consolidação de uma fratura é um dos mais notáveis processos de reparo do corpo humano, porque dela resulta não somente uma cicatrização, mas uma reconstituição do tecido lesado em outro semelhante à sua forma original(6). Esta se dá por processo semelhante à ossificação endocondral, exceto pela falta de organização, na qual o hematoma fraturário evolui gradualmente para calo fibroso, fibrocartilaginoso e ósseo (3,4).
Vários fatores locais reconhecidamente afetam a qualidade do calo ósseo formado, entre eles: a intensidade da lesão tecidual associada(2), a drenagem do hematoma fraturário (4,12), tipo do osso envolvido e sua vascularização (2), a tração excessiva dos segmentos fraturados, perda óssea e o grau de mobilidade dos fragmentos(7,11,15)A desnervação periférica promove alterações na estrutura da placa epifisária, promovendo uma lesão transitória no processo de ossificação endocondral (8,14).
Sendo a produção do osso, no calo fraturário, decorrente de processo de ossificação endocondral, realizamos estudo experimental em ratos com o objetivo de verificar se a desnervação periférica teria influência sobre a seqüência de eventos que levam à formação do calo ósseo.
MATERIAL E MÉTODOS
Foram utilizados 24 ratos albinos, machos, da raça Wistar, com 30 dias de vida e peso médio de 100 gramas.
Procedimento - Sob anestesia inalatória, com éter sulfúrico, os animais foram submetidos manualmente a fratura completa dos 2°, 3° e 4° metatarsais (direitos e esquerdos). Em seguida, foi feito um acesso à região glútea esquerda e ressecção cirúrgica de lcm do nervo ciático esquerdo, ao nível do 1/3 proximal do fêmur. A ferida foi suturada com fio absorvivel e os animais mantidos em gaiolas com alimentação padrão e sem imobilização. O sacrificio desses animais foi feito por grupos de seis, após uma, duas, três e seis semanas de lesão, sendo avaliada histologicamente a formação do calo ósseo dos metatarsais, comparando-se o lado desnervado com o contralateral.

Preparo das peças - Após o sacrificio, os materiais supracitados de ambas as patas foram dissecados com auxilio de microscópio cirúrgico (D F Vasconcelos), sob aumento entre 10 e 25 vezes, e imersos em solução de formol a 10%.
Técnica histológica - Após a fixação em formol a 10%, os fragmentos foram descalcificados em ácido nitrico a 5% por cinco dias, desidratados, clarificados e incluídos em parafina e cortados na espessura de cinco micra com micrótomo Spencer (American Optical). Os cortes foram corados com as técnicas de alcian blue em pH 0,4 e 2,5, com fundo de safranina para visualização de proteoglicanas sulfatadas e não sulfatadas ácidas, e pelo método tricrômico de Gomori, para avaliação de tecido conjuntivo, colágeno e células em geral.
As lâminas do material histológico foram analisadas e submetidas à documentação fotográfica.

RESULTADOS
Os animais operados apresentaram queda plantar traseira esquerda durante todo o período de seguimento, correspondendo à desnervação motora periférica, Não houve infecção nem óbito prematuro,
No estudo histo1ógico comparativo entre as patas direita e esquerda, durante as 1ª, 2ª, 3ª e 6ª semanas pós-procedimento cirúrgico, observou-se:
1ª semana - Pata direita - Os metatarsais apresentam calo endosteal, com áreas de calo cartilagino e áreas já de calo ósseo. Observa -se também atividade os teogênica periosteal. Pata esquerda (desnervada) - Os metatarsais apresentam atividade osteogênica periosteal, com áreas de calo cartilaginoso em formação e calo ósseo já formado. Esse material mostra ainda pequena extensão de calo endosteal (fig, 1).
2ª semana - Pata direita - Os metatarsais apresentam calo periosteal ainda com áreas de cartilagem, o mesmo acontecendo com as areas de calo endosteal. Pa-ta esquerda (desnervada) - Os metatarsais apresentam calo periosteal com áreas de cartilagem o mesmo ocorrendo com o calo endosteal (fig. 2).
3ª semana - Pata direita - Os metatarsais apresentam espessura do calo endosteal mais acentuada do que nas semanas anteriores e o calo periosteal ainda revela áreas de calo cartilaginoso (significando que o processo de ossificação ainda não se completou). Pata esquerda (desnervada) - Os metatarsais apresentam espessura do calo endosteal mais acentuada do que nas semanas anteriores e ainda se observa no calo periosteal pequenas áreas de cartilagem (fig. 3).

6ª semana - Pata direita - Os metatarsais apresentam calo endosteal espessado e as áreas de cartilagem do calo periosteal se encontram reduzidas em relação às semanas antesiores. Pata esquerda (desnervada) - Os metatarsais apresentam calo periosteal bastante espessado (fig. 4).
DISCUSSÃO
Utilizamos os metatarsais para estudo por serem estes ossos de inervação exclusiva do nervo ciático, não sofrendo, como os demais ossos longos dos membros inferiores, a influência dos nervos femoral e obturador.
A desnervação ciática foi considerada eficaz porque não houve recuperação motora da pata esquerda traseira dos animais durante o seguimento. Diversos autores afirmarm que a função de um nervo periférico seccionado não retorna durante o período de crescimento, o qual é muito curto em pequenos animais(5,13).
Segundo Oliveira & Elias(9) e Santandreu(14), a desnervação ciática provoca desarranjo na estrutura da placa de crescimento dos metatarsais, com alteração no processo de ossificação endocondral. Esses achados foram observados apenas na 1ª semana após a desnervação, normalizando-se a partir da 2ª semana. No nosso estudo, através da análise histológica das lâminas da 1ª semana de experimento, verificamos a presença de calo cartilaginoso em formação e calo ósseo já formado. Se-ria esperado, portanto, que o processo de ossificação endocondral fosse alterado pela desnervação ciática, da mesma forma que na placa epifisária, o que de fato não ocorreu.

A imobilização provocada pela desnervação motora seria responsável por diminuição no crescimento ósseo aposicional(1,10). No nosso modelo experimental, provocamos paralisia motora e, conseqüentemente, diminuição do crescimento ósseo aposicional; contudo, não verificamos reflexos sobre o processo de ossificação endocondral na formação do calo ósseo.
Na evolução natural da formação do calo ósseo, não houve alterações significativas cntre o grupo com lesão do nervo ciático e fratura e o grupo apenas com fra-tura, visto que foram observadas semelhanças no que diz respeito à ossificação endocondral e periosteal nas lª, 2ª, 3ª e 6ª semanas.
Não encontramos na literatura estudos relativos à formação de calo ósseo associada à desnervação periférica.
CONCLUSÃO
1) A desnervação ciática não resultou em alterações no processo de formação do calo ósseo.
2) Como aplicação prática, a fratura dos metatarsais (2º, 3º e 4º) associada à lesão do nervo ciático não necessitaria de tempo de imobilização diferente daquele utilizado no tratamento conservador de fraturas isoladas.
Charnley, J.: The closed treatment of common fractures, 3rd ed., Edinburg, E & Livingstone, 1968.
Cruess, R.L.: Healing of bone, tendon and ligament, in Rock-wood Jr., C.A. & Green, D.P.: Fractures in adults, Philadelphia, JB Lippincott, 1984. Vol. 2, p. 150.
Elias, N., Carvalho, J. J., Oliveira, L.P., Rocha, T.H.N., Melo, M.A.G., Neves, D.M.S. & Mesquita, K.C.: Participação do hematoma na consolidação da fratura. Estudo experimental comparativo entre fratura aberta e fechada da tíbia. Rev Bras Ortop 27: 529-533, 1992.
Garcés, G. & Santandreu, M.: Longitudinal bone growth after sciatica denervation in rats. J Bone Joint Surg [Br] 70: 315-318, 1988.
Mc Kibbin, B.: The biology of fracture healing in long bones. J Bone Joint Surg [Br] 60: 150-162, 1978.
Müller, M.E., Allgower, M. & Willenegger, H.: Technique of internal fixation in fracture, New York, Springer Verlag, 1965.
Oliveira, L. P., Teixeira, J. C. M., Santos, J. B.C., Cordeiro, D.X., Elias, N. & Mesquita, K. C.: Efeitos da desnervação ciática sobre
o crescimento longitudinal em metatarsais. Estudo experimental em ratos, 1991 (dados não publicados).
Oliveira, L.P. & Elias, N.: Estudo histológico da placa de crescimento após desnervação periférica. Estudos experimentais em ratos, 1992 (dados não publicados).
Pennock, J .M., Kalu, D.N., Clark, M.B., Foster, G.V. & Doyle, F.H.: Hypoplasia of bone induced by immobilization. Br J Ra-diol 45: 641-646, 1972.
Perren, S.M., Hugger, A. & Russemberg, M.S.: Cortical bone healing. Acta Ortop Scand (Suppl) 125: 1969.
Potts, W.J.: The role of haematoma in fracture healing. Surg Ginecol Obstet 57: 318-324, 1933.
Ring, P.A.: The influence of nervous system upon the growth of bones. J Bone Joint Surg [Br] 43: 121-140, 1961.
Santandreu, M.E.: Efectos de la desnervation ciatica sobre los cartilagos de crecimiento, doctoral thesis, Zaragoza, 1986 (dados não publicados).
Schenk, R. & Willenegger, H.: Morphological findings in primary fracture healing: callus formation. Symposium on the Biology of Fracture Healing, Budapest. Symposia Biologica Hungarica 7: 75-80, 1967.