A importância conferida ao sistema nervoso sobre o crescimento ósseo e um tema controverso, sobre o qual não existe opinião unânime. As observações clínicas demonstraram que, após a lesão periférica do nervo ciático em crianças, o pé ipsilateral será menor do que o contralateral, ao final do crescimento(4,5,9,13).
Por outro lado, na poliomielite, embora se reconheça que o resultado final é um encurtamento do membro paralisado, não se explica como este ocorre, já que no decorrer do 1º ano e em parte do 2º ano de acometimento existe aumento relativo dos ossos localizados no território afetado(18).
Diversos autores trabalharam na tentativa de explicar a forma de ação do sistema nervoso sobre o crescimento ósseo, negando-lhe um efeito direto. Para alguns, as conseqüências da desnervação seriam medidas pela imobilização subseqüente(1,24,17,21),enquanto que para outros seria através das alterações vasculares que ocorrem após a interrupção do estímulo nervoso (18).
Diferentes modelos experimentais demonstraram, de forma indireta, a existência de relação entre a desnervação periférica e a diminuição no crescimento longitudinal dos ossos longos(7,8,12).
Este trabalho tem por objetivo verificar a ocorrência de alterações histológicas da placa epifisária dos metatarsais após a desnervação ciática em ratos.
MATERIAL E MÉTODOS
Utilizamos 25 ratos com 30 dias de vida, machos, da raça Wistar, com peso médio de 95 gramas.
Os animais foram submetidos a anestesia com éter sulfúrico. Foi realizada incisão cutânea, ao nível do 1/3 proximal do fêmur esquerdo, de cerca de 1,5cm de extensão. O músculo grande glúteo foi divulsionado, proporcionando a identificação do nervo ciático após sua emergência sobre os músculos rotadores. Foi realizada a secção do nervo a esse nível, suplementada por neurectomia de cerca de 1,0cm. Acesso semelhante, sem lesão do ciático, foi realizado no membro contralateral, para fins de controle. As feridas foram suturadas com fio absorvível e os animais foram recolhidos em gaiolas coletivas, sem restrições de atividades e com água e ração ad libitum.

Os animais foram divididos em grupos de cinco. Os ratos do 1° grupo foram sacrificados três dias após a desnervação. Os animais do 2°, 3°, 4° e 5° grupos fo-ram sacrificados, respectivamente, sete, 14, 28 e 56 dias após a desnervação.
Após o sacrifício, as patas traseiras eram dissecadas e o metatarsais processados para análise por técnicas de microscopia óptica (hematoxilina-eosina). A análise histológica foi efetuada comparando-se o lado desnervado com o normal contralateral.
RESULTADOS
Desenvolveu-se atrofia na musculatura da panturrilha dos membros desnervados. As características estruturais da placa epifisária dos cinco metatarsais de casa pa-ta foram similares e, em função disso, passam a ser descritas em conjunto.
1° grupo - três dias após a desnervação ciática esquerda:
? Lado controle: foi nítida a destinção entre as camadas da placa epifisária. A camada proliferativa era composta por cordões de cerca de dez a 12 células. A camada seguinte, de células hipertrofiadas, guardava pouca relação com as estruturas colunar percedente. Observou-se grande celularidade na placa epifisária.

? Lado desnervado: observou-se que a altura da placa era semelhante à do lado controle, existindo diminuição da celularidade, com cordões celulares espaçados por maior quantidade matriz. A placa epifisária manteve sua orgamização em camadas.
2° grupo - sete dias após a desnervação ciática esquerda:
? Lado controle: observou-se que o arranjo estrutural era semelhante ao da etapa precedente, com maior quantidade de matriz entre os cordões celulares (figura 1).
? Lado desnervado: verificou-se diminuição da altura da placa epifisária quando comparada ao lado controle. Ocorreu perda da organização estutural em todas as camadas da placa, principalmente na zona proliferativa (figuara 2).
3° grupo - 14 dias após a desnervação ciática esquerda:
? Lado controle: os cordões celulares mostratamse bem definidos e com maior sincronia entre as camadas proliferativa e hipertrófica. Foi observado discreto declínio da celularidade em relação à etapa anterior.
? Lado desnervado: foi verificado o retorno da organização estrutural, com a formação de diversos cordões celulares na camada proliferativa, embora com número reduzido de células por coluna. A altura da placa epifisária encontrava-se diminuída em relação ao lado controle (figura 3).

4° grupo - 28 dias após a desnervação ciática esquerda:
? Lado controle: a organização estrutural era deficiente e foram obesrvadas áreas isoladas de ossificação a partir da epífise interrompendo a camada basal.
? Lado desnervado: semelhante ao lado controle.
5° grupo - 56 dias após a desnervação ciática esquerda:
? Lado controle: a placa epifisária desapareceu, em-bora com alguns vestígios em pontos isolados.
? Lado desnervado: algumas peças apresentavam desaparecimento da placa. Outras ainda permaneciam com a placa epifisária presente, com grande diminuição dos elementos celulares e desorganização estrutural, característica de baixa atividade.
DISCUSSÃO
Como estrutura especializada com a função esclusiva da prover o crescimento ósseo longitudinal, a placa epifisária é sensível às alterações fisiológicas, bioquímicas e patológicas que ocorrem no organismo como um todo.
Adotamos sua divisão, pelo aspecto morfológico, em camada basal, proliferativa, hipertrófica e de calcificação provisíria(2).
As alterações estruturais verificadas na fise do lado desnervados, no decorrer do experimento, ocorreram principalmente na camada proliferativa. Essa camada seria a única zona da placa de crescimento em que ocorre crescimento intersticial por multiplicação celular(3,15,19). Consideramos esse desarranjo estrutural como indicador indireto da diminuição da taxa de crescimento da placa epifisária. Estudos histológicos demonstraram que a per-da do arranjo estrutural da placa epifisária está relacionada ao menor crescimento longitudinal(6).
Além da perda da estutura colunar, observamos diminuição no número de células na camada proliferativa e decréscimo na altura da placa epifisária do lado desnervado quando comparada ao lado controle. Já foi demonstrado morfometricamente que quanto maior a altura da placa epifisária maior sua taxa de crescimento(11,19). Acreditamos que essa diminuição da altura da placa e da celularidade pode ser considerada como indicadora da menor taxa de crescimento, embora métodos mais específicos de análise não tenham sido empregado(19).
Diversos autores estudaram os efeitos da desnervação periférica sobre o cresciemnto ósseo longitudinal, negando efeito direto do nervo sobre o osso(1,14,16,17,20). As alterações ósseas observadas seriam decorrentes da paralisia motora; no entanto, o estudo histológico da placa epifisária em ratos, após a imobilização gessada, não demonstrou alterações na sua microanatomia(10). No presente estudo, verificamos marcante atrofia muscular causada pela paralisia motora que se segue à desnervação. Acreditamos que essa paralisia provoca diminuição no crescimento ósseo aposicional (osteoporose por desuso), mas que tal fato não explica as alterações morfológicas encontradas na placa de crescimento.
Nossos achados podem ajudar a explicar, em parte, o tamanho diminuído das extremidades visto em desordens com desnervação periférica, tais como a poliomielite as lesões do plexo braquial no nascimento e as lesões iatrogênicas do nervo ciático após injeções intraglúteas em recém-natos. A possibilidade de que os nervos pos-sam ter influência trófica sobre o crescimento ósseo, não realacionadas com o efeito da ação muscular, denota novo aspecto a ser investigado na etiologia das desordens regionais idiopáticas do crescimento.
CONCLUSÕES
A análise histológica da placa de crescimento dos metatarsais após a desnervação ciática demostrou que:
1) a principal alteração estrutural, com perda do arranjo colunar e diminuição da altura da placa epifisária, ocorreu após sete dias de desnervação;
2) a partir de 14 dias após a desnervação, a placa epifisária recuperou seu arranjo colunar;
3) a camada mais afetada foi a proliferativa;
4) as alterações verificadas são compatíveis com a diminuição da taxa de crescimento da placa epifisária.
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